A Falta de Ética e seus Custos

O preço invisível que todos pagamos quando a confiança deixa de existir

Existe um custo que raramente aparece nas demonstrações financeiras das empresas. Não tem uma linha específica no balanço. Não é facilmente mensurável. Mas está presente em praticamente todas as organizações e em todas as relações profissionais. É o custo da desconfiança. E ele é gerado, quase sempre, pela ausência de ética.

Ao longo de mais de quarenta anos acompanhando organizações de diferentes setores e tamanhos, aprendi a enxergar esse custo onde muita gente não o vê. Ele se manifesta de formas variadas e, na maioria das vezes, é tratado como algo inevitável, como se fosse parte natural do ambiente de negócios. Mas não é inevitável. Ele é produzido. E é produzido por escolhas.

O custo dos contratos que crescem

Existe um fenômeno que qualquer advogado ou gestor experiente reconhece imediatamente: contratos estão ficando cada vez mais longos, mais detalhados e mais caros de elaborar. Não porque as operações ficaram mais complexas em si. Mas porque a desconfiança entre as partes aumentou.

Quando existe confiança genuína entre parceiros, um contrato pode ser relativamente simples. Ele estabelece o essencial: o que cada parte se compromete a fazer, os prazos, as condições e o que acontece se algo não funcionar como esperado. Quando a confiança não existe, o contrato precisa prever cada exceção possível, cada interpretação alternativa, cada hipótese de descumprimento. Cada cláusula adicional representa tempo de advogados, revisões, negociações, atrasos. Tudo isso tem um custo financeiro direto. E esse custo é pago porque alguém, em algum momento, agiu de forma que tornou necessário proteger a outra parte com mais rigor.

Não é exagero dizer que parte significativa dos honorários jurídicos que as empresas pagam hoje existe porque a ética foi insuficiente ontem.

O custo da supervisão que não deveria existir

Outro custo invisível da falta de ética é o custo da supervisão excessiva. Quando as pessoas não confiam umas nas outras dentro de uma organização, surgem camadas de controle que não existiriam num ambiente de integridade. Aprovações adicionais. Auditorias reativas. Processos de verificação duplicados. Reuniões de acompanhamento que existem não para criar valor, mas para garantir que ninguém está fazendo algo errado.

Cada uma dessas camadas consome tempo, energia e recursos que poderiam estar sendo direcionados para o crescimento, para a inovação, para o atendimento ao cliente. Em vez disso, são consumidos pela necessidade de proteger a organização contra seus próprios membros.

Já presenciei empresas onde gestores dedicavam uma parcela significativa de seu tempo simplesmente verificando se o que lhes era reportado era verdadeiro. Não por paranoia, mas por experiência acumulada de situações em que informações foram distorcidas, omitidas ou simplesmente inventadas. Isso é o custo da desconfiança em ação. E ele é altíssimo.

O custo para além das organizações

A falta de ética não produz custos apenas dentro das empresas. Ela se espalha para a sociedade de formas que frequentemente não associamos à sua origem. Quando a desconfiança se instala nas relações comerciais, as pessoas e as organizações passam a investir em proteção em vez de investir em crescimento. Sistemas de segurança mais sofisticados. Mecanismos de verificação mais complexos. Seguros contra riscos que não existiriam num ambiente de maior integridade.

São recursos que poderiam estar sendo aplicados em inovação, em desenvolvimento de pessoas, em melhoria de produtos e serviços. Em vez disso, são consumidos pela necessidade de se proteger contra comportamentos que não deveriam existir. Esse desvio de recursos tem um impacto real sobre a eficiência coletiva. É um imposto invisível que todos pagam, mesmo aqueles que nunca agiram de forma antiética.

O ciclo vicioso da desconfiança

A falta de ética cria um ciclo que se retroalimenta. Uma parte age de forma inadequada. A outra, ferida, passa a desconfiar. Para se proteger, exige mais controles, mais garantias, mais formalidades. Isso torna as relações mais burocráticas e menos ágeis. A burocracia gera frustração. A frustração, em alguns casos, gera atalhos. E os atalhos, frequentemente, geram novos comportamentos inadequados. O ciclo recomeça, um pouco mais desgastado a cada volta.

Quebrar esse ciclo exige algo que nenhum contrato é capaz de criar por si só: uma decisão consciente de agir com integridade, mesmo quando ninguém está olhando, mesmo quando seria mais conveniente não fazê-lo.

O que a ética realmente representa

Existe uma percepção equivocada de que ética é uma restrição. Que agir eticamente significa abrir mão de vantagens, de oportunidades, de resultados que outros alcançarão sem esse escrúpulo. Essa percepção é compreensível a curto prazo. Mas ela ignora completamente a dimensão dos custos que a falta de ética gera ao longo do tempo.

Organizações e profissionais que constroem reputação de integridade não precisam de contratos quilométricos para fechar negócios. Não precisam de camadas excessivas de supervisão para garantir que as coisas funcionem. Não precisam gastar energia convencendo parceiros de que suas intenções são genuínas. Eles chegam a qualquer negociação com um ativo que não aparece no balanço, mas que tem valor mensurável em cada transação facilitada, em cada relação preservada, em cada crise evitada.

A ética não é um princípio moral descolado da realidade dos negócios. É um fator econômico. E os custos de sua ausência são reais, recorrentes e muito maiores do que a maioria das pessoas está disposta a calcular com honestidade.

Uma reflexão para encerrar

Se existe uma conclusão que quarenta anos observando organizações me permite oferecer com segurança, é esta: ambientes éticos são ambientes mais eficientes. Não apenas mais justos, mais agradáveis ou mais alinhados com princípios elevados. São genuinamente mais eficientes. Porque a energia que não é gasta em proteção, em supervisão, em contratos defensivos e em recuperação de danos pode ser aplicada naquilo que realmente faz as organizações crescerem.

Promover a ética não é um exercício de idealismo. É uma decisão estratégica. E talvez a mais rentável que uma organização possa tomar.

Eder Carvalho Magalhães

Consultor em Governança, Riscos, Controles Internos, Compliance e Auditoria

Recommended articles

botão whatsapp

Código de Ética e Conduta

O Código de Ética e Conduta reflete os padrões de comportamento adotados por nossa empresa. Seus princípios devem orientar cada colaborador, parceiro e a diretoria, em suas atividades profissionais.

Introdução:

A Comrades Consultoria está comprometida em manter o mais alto padrão de conduta ética, com o cumprimento intransigente das leis vigentes em cada um dos mercados em que atua. A consecução desses objetivos depende da compreensão, por nossos colaboradores e parceiros, da cultura, história, ambiente jurídico e institucional, inerentes a cada jurisdição.

Conformidade com a lei

A conformidade está intimamente ligada ao compliance, o ato de combinar crenças, atitudes e comportamentos, para que todos que estejam alinhados às normas internas da empresa e de seus clientes, bem como às leis. Em outras palavras, estar em conformidade significa atender aos requisitos legais e leis vigentes em todos os locais em que a empresa atua, quer no Brasil, quer no exterior. Nada mais é do que cumprir o combinado!

Normas ética e conduta

A conduta e o relacionamento entre colaboradores, bem como o relacionamento da Comrades Consultoria com concorrentes, parceiros e agentes públicos, deve ser pautado pelos princípios aqui contidos.

Direitos Humanos e de trabalho

A Comrades Consultoria não tolera nenhuma forma de violação aos direitos humanos, seja sob a forma de preconceito, discriminação ou assédio, tanto no relacionamento entre colaboradores quanto entre Colaboradores e terceiros, seja em virtude de raça, cor, religião, filiação política, nacionalidade, sexo, orientação sexual, idade ou condição física. Nesse sentido, a Comrades Consultoria não permite campanhas ou ações de busca de adesão de colaboradores relacionadas a temas de natureza política, ou religiosa no ambiente de trabalho.

 

Responsabilidade Social

A Comrades consultoria está comprometida com o apoio a ações de responsabilidade social e promoção do desenvolvimento sustentável, com respeito aos direitos humanos, não tolerando a utilização de mão de obra infantil ou forçada em qualquer nível de sua organização, ou de sua cadeia de fornecimento.

Foco nos clientes

O compromisso de entregar bons resultados ao cliente é parte fundamental da nossa cultura. Assim, no tratamento com os clientes, os colaboradores devem conduzir-se de forma ética e eficiente, transmitindo informações claras e úteis, dentro do prazo prometido ou esperado, destacando com clareza os fatores de risco inerentes ao projeto e delineando uma estratégia adequada de ação sempre lastreada nos princípios e padrões de conduta previstos neste Código.

Mídia Social

A Comrades Consultoria reconhece o papel que a mídia social desempenha na comunicação e na sociedade atualmente. Os colaboradores da Comrades Consultoria devem proteger a informação confidencial e ter bom senso ao participar de mídias Sociais. Sendo assim, a Comrades Consultoria e seus colaboradores se comprometem a: zelar pela imagem da empresa, observar e cumprir com as políticas de uso de redes sociais e cumprir as regras previstas nos códigos de ética e de conduta de cada um dos nossos clientes.

Registros Contábeis e Financeiros

A Comrades Consultoria manterá os registros contábeis e financeiros transparente, observando rigorosamente a legislação e as normas regulatórias aplicáveis. Nenhuma operação e cunho econômico-financeiro ou patrimonial será realizada fora dos livros comerciais, ou fiscais, devendo todas as transações realizadas pela empresa ser devidamente registradas.

Conflito de Interesses

Há conflito de interesses quando um colaborador utiliza seu cargo, função ou posição negocial para obter vantagem Indevida, direta ou indireta para si, em conflito com os Interesses da Comrades Consultoria