Todos os anos o Índice de Percepção da Corrupção é divulgado com enorme repercussão. Em 2025, o Brasil obteve 35 pontos, ocupando posição inferior à de mais de uma centena de países. A leitura superficial sugere deterioração estrutural. Mas o debate precisa ir além da manchete.
O paradoxo brasileiro: mais controle, pior percepção?
Desde 2013, o Brasil firmou dezenas de acordos de leniência, estruturou programas de compliance em empresas estatais e privadas, expandiu a Lei de Acesso à Informação, digitalizou processos de controle e auditoria e fortaleceu CGU, TCU, Ministério Público e Judiciário. Hoje há mais investigações, mais exposição e mais transparência do que havia uma década atrás.
E é exatamente aqui que surge o paradoxo. Quanto mais se investiga, mais aparece. Quanto mais aparece, maior a percepção. Quanto maior a percepção, pior o ranking. A questão que se impõe é simples e desconfortável: estamos medindo incidência ou estamos medindo visibilidade?
Comparabilidade estrutural: o tamanho importa?
O Brasil possui 214 milhões de habitantes. Vários dos países que aparecem à sua frente no IPC 2025 possuem populações que não chegam a meio milhão de pessoas. Bahamas tem 420 mil habitantes e 64 pontos. Barbados tem 280 mil e 68 pontos. Seicheles conta com 110 mil pessoas e também marca 68 pontos. São Vicente e Granadinas, com 100 mil habitantes, obteve 63 pontos. Dominica, com apenas 75 mil, alcançou 60 pontos.
Em termos populacionais, o Brasil é mais de 1.900 vezes maior que Dominica. A pergunta não é política. É metodológica. Faz sentido comparar, sob a mesma régua, países com escalas institucionais tão radicalmente distintas? O IPC não ajusta por população, por número absoluto de contratos públicos, por complexidade federativa, por volume orçamentário nem por intensidade investigativa. Trata todas as nações como unidades homogêneas. E elas simplesmente não são.
Indicadores objetivos versus percepção
O IPC é construído a partir de percepções de especialistas e executivos. Quando analisamos indicadores objetivos, porém, o cenário se torna mais complexo. Métricas como número anual de investigações anticorrupção abertas, quantidade de condenações transitadas em julgado, valores recuperados por acordos de leniência, índices de transparência orçamentária, avaliações de independência judicial e grau de liberdade de imprensa pintam um quadro que não cabe numa nota única.
Países com maior enforcement tendem a produzir mais dados públicos sobre corrupção. Países com menor enforcement tendem a produzir menos exposição. O efeito paradoxal é evidente: mais combate gera mais casos visíveis, que por sua vez geram maior percepção. Menos combate gera menos exposição, o que resulta numa percepção artificialmente menor. O instrumento pode estar premiando o silêncio e penalizando a transparência.
O debate internacional e os Princípios de Viena
Em 2023, a UNODC consolidou os Princípios de Viena para a Mensuração da Corrupção. Entre suas recomendações centrais estão evitar modelos universais excessivamente simplificados, reconhecer que corrupção é multiforme, priorizar métricas setoriais e contextualizadas, superar a lógica de “um país, uma nota” e migrar da percepção abstrata para dados empiricamente aferíveis.
A tendência internacional é clara: mensurar corrupção exige granularidade. Um número único aplicado a realidades tão distintas carrega limitações que precisam ser reconhecidas abertamente, especialmente quando suas consequências afetam decisões de investimento, reputação de países e políticas públicas.
O risco da interpretação superficial
Nada do que foi dito até aqui significa negar a corrupção. Ela existe, é grave e precisa ser enfrentada com seriedade. O ponto é outro. Interpretar números sem considerar a metodologia que os gerou pode produzir narrativas distorcidas, decisões políticas equivocadas, percepção de risco-país descolada da capacidade institucional real e, talvez o mais perverso de todos, incentivos contra quem investiga mais.
Se combater a corrupção aumenta a percepção de corrupção, precisamos de maturidade interpretativa. Caso contrário, penalizamos justamente quem fortalece suas instituições.
IPC e liberdade de imprensa: estamos medindo corrupção ou transparência?
Existe uma variável pouco explorada quando se analisa o IPC: o grau de liberdade de imprensa. Países com maior liberdade informacional tendem a investigar mais, publicar mais, expor mais escândalos e produzir maior cobertura jornalística. A consequência direta é uma maior visibilidade pública do fenômeno.
Como o IPC é construído a partir de percepções formadas com base nas informações disponíveis, quanto maior a circulação de informações sobre corrupção, maior tende a ser a percepção de sua existência. Isso significa que países com imprensa livre e ambiente democrático vibrante podem apresentar pontuação inferior à de regimes onde a informação é controlada ou institucionalmente filtrada. A questão técnica é desconfortável: o IPC está captando corrupção ou está captando transparência?
Uma questão de correlação estatística
Há uma hipótese metodológica relevante que merece investigação empírica: a possível correlação entre a pontuação no IPC e o grau de liberdade de imprensa. Se países com maior liberdade informacional produzem mais investigações e maior circulação de informações, parte da variação da pontuação pode estar correlacionada não apenas com a incidência de corrupção, mas com variáveis institucionais como independência judicial, capacidade investigativa e transparência ativa.
Caso exista correlação significativa, estamos diante de uma variável interveniente clássica: o índice pode capturar simultaneamente o fenômeno e o grau de exposição do fenômeno. Em termos estatísticos, isso configura risco de viés de mensuração. Não se trata de invalidar o IPC, mas de reconhecer que ele pode agregar múltiplas dimensões institucionais numa única variável sintética, dificultando inferências causais diretas.
Padrões observáveis: visibilidade e percepção
Ao observar rankings internacionais, percebe-se um padrão consistente. Ambientes com maior liberdade institucional produzem mais dados públicos sobre investigações, denúncias e processos relacionados à corrupção. Esse fluxo constante de informação alimenta a percepção, interna e externa, de recorrência do fenômeno. Sistemas informacionais mais restritivos tendem a gerar menor volume de informação pública. E menor informação pública não significa menor corrupção. Significa menor visibilidade.
Se a visibilidade varia estruturalmente entre os países, a percepção também variará. O IPC pode estar captando simultaneamente a incidência percebida, o grau de liberdade informacional, a intensidade de exposição midiática e o nível de transparência institucional. Quando múltiplas variáveis influenciam um único indicador agregado, a interpretação exige cautela. Transparência pode aumentar percepção. Opacidade pode reduzi-la. E a pergunta metodológica torna-se inevitável: estamos comparando níveis reais de corrupção ou diferentes graus de visibilidade institucional?
Conclusão
O debate não é se devemos medir corrupção. Devemos. E acredito que nenhum de nós, profissionais que trabalhamos todos os dias com esse tema, temos dúvida sobre isso. O debate é se estamos medindo da maneira mais adequada.
Se o instrumento não ajusta por população, complexidade institucional, intensidade investigativa e liberdade de imprensa, ele pode confundir fenômeno com exposição. Pode confundir incidência com visibilidade. Pode confundir opacidade com integridade.
Talvez o desafio não seja apenas combater a corrupção. Talvez seja também desenvolver instrumentos de mensuração que não penalizem quem investiga, quem expõe e quem fortalece suas instituições. Porque, em temas estruturais, o termômetro não pode punir quem revela a febre. E maturidade institucional começa pela capacidade de questionar a régua que usamos para medir a realidade.
Eder Carvalho Magalhães
Executivo, conselheiro e professor