Na última semana de novembro de 2025, um caso envolvendo uma grande companhia brasileira reacendeu um debate essencial: o risco invisível que mora nos estoques. A empresa precisou reconhecer uma divergência bilionária no valor do estoque e reapresentar demonstrações financeiras anteriores. O impacto foi enorme, operacional, financeiro, reputacional e regulatório. Mas, mais do que olhar para o episódio em si, vale olhar para o padrão que ele revela. E esse padrão é muito mais comum do que imaginamos.
Quando o CMV vira um risco de governança
Muita gente trata o custo das mercadorias vendidas como um número contábil. Não é. O CMV é a espinha dorsal da margem, do lucro e do fluxo de caixa. Se o método de custeio está errado, tudo está errado. Um equívoco nesse ponto não é um detalhe técnico que o contador resolve na virada do mês. É uma distorção que contamina as demonstrações financeiras, engana o mercado e compromete decisões estratégicas inteiras.
O inventário que ninguém faz
Algumas lojas da companhia ficaram anos sem inventários físicos completos. Parece exagero, mas não é. Essa é uma realidade mais frequente do que se admite, especialmente em empresas que crescem rapidamente e priorizam a expansão operacional sem fortalecer proporcionalmente seus controles internos. A ausência de inventários regulares abre espaço para perdas não registradas, furtos internos, produtos sem baixa e inconsistências crônicas entre o estoque físico e o contábil. Inventário não é burocracia. É governança operacional. E quando ele não acontece, o estoque deixa de ser um ativo mensurável e passa a ser uma estimativa.
Crescimento rápido com controles fracos
Crescer é ótimo. Crescer sem controle é perigoso. Quando uma empresa expande suas operações, mas não expande seus controles, seus sistemas, suas políticas e sua cultura de governança, ela planta o terreno para divergências que crescem em silêncio. Essa é uma equação conhecida por quem trabalha com auditoria e gestão de riscos: velocidade de crescimento sem proporcional fortalecimento dos controles internos é receita para problemas que, mais cedo ou mais tarde, aparecem de forma dolorosa.
Uma dúvida que a experiência não deixa calar
Li muito sobre este caso. Não posso concluir nada além do que foi publicado. Mas uma coisa me inquieta, com base em experiências acumuladas ao longo de décadas. O descontrole é ruim, sem dúvida. Um ambiente onde as coisas não são controladas impossibilita a gestão, afinal, não se gerencia aquilo que não se controla. Mas existe uma questão que não consigo ignorar.
Quando um item desaparece do estoque, ele tomou algum destino. Pode ter sido furtado. Mas pode também ter sido vendido sem a emissão de nota fiscal. Se não há nota, não há como registrar a baixa do estoque nem a entrada do dinheiro. Fica-se diante de uma possibilidade incômoda: um estoque inexistente e um dinheiro não registrado.
Não se trata de insinuar nada. Trata-se de aplicar um princípio que aprendi bem cedo na contabilidade: nunca existe apenas um erro. São pelo menos dois. Se há um estoque que não existe, existe necessariamente outro ponto fora do lugar, senão a contabilidade não fecha. Ajustar as demonstrações simplesmente pela baixa de toda a diferença no estoque pode ser a decisão correta. Mas antes de tomá-la, cabe perguntar se todas as operações foram corretamente registradas. Se há algo mais por trás do número.
Essa dúvida tenho. Ninguém tem a obrigação de me esclarecer, até porque não tenho nenhuma relação com o caso. Mas posso utilizá-lo como faço frequentemente com meus alunos da disciplina de Fraudes e Erros: quando é que um erro deixa de ser erro e passa a ser fraude? Que perguntas precisamos fazer antes de aceitar a explicação mais simples?
Alertas ignorados sempre voltam
O caso deixa claro um ponto que repito há anos. Quando um auditor escreve algo como “estoques são um ponto sensível”, isso não é um rodapé de relatório. É uma bomba-relógio. A escolha de não tratar o problema cedo, por falta de tempo, de recursos ou de prioridade, não elimina o risco. Apenas adia a conta. E a conta sempre chega. Normalmente maior do que teria sido se o problema tivesse sido endereçado na primeira sinalização.
Confiança é o ativo mais frágil de uma empresa de capital aberto
Mais do que o ajuste contábil, o dano mais sério desse tipo de episódio é o abalo de confiança. Mercado, investidores, bancos e fornecedores passam a se perguntar se aquele número estava errado, quais outros podem estar também. Qual é a governança real por trás da empresa. O quanto se pode confiar no que se está vendo. Essas perguntas, uma vez instaladas, não desaparecem com uma nota de esclarecimento. Precisam de tempo, de consistência e de comportamento para serem respondidas.
O que esse caso ensina para todas as empresas
Independentemente do porte, toda empresa que lida com estoques deveria extrair algumas lições desse episódio. A primeira é realizar inventários físicos com regularidade. A segunda é ter metodologia de custeio clara, documentada e auditável. A terceira é testar, revisar e questionar os números, especialmente os que nunca foram questionados antes. A quarta é tratar recomendações de auditoria como prioridade, nunca como burocracia. E a quinta é compreender que expandir o negócio sem expandir os controles é crescer sobre areia.
Acima de tudo, há uma lição que vale para qualquer organização, em qualquer setor: governança e compliance não são custos. São investimentos. Quando uma empresa não sabe exatamente o que tem no estoque, ela perde algo muito mais importante do que uma linha do balanço. Ela perde a confiança que o mercado deposita nela. E confiança, uma vez arranhada, leva muito mais tempo para ser reconstruída do que levou para ser perdida.
Eder Carvalho Magalhães
Consultor em Governança, Riscos, Controles Internos, Compliance e Auditoria