Na nossa vida, muitas vezes enfrentamos situações em que sentimos que não é mais possível seguir por uma determinada estrada. A sensação de limite surge, e, em vez de resistir a ela, talvez seja o momento de parar, avaliar e encontrar uma nova maneira de continuar. Não se trata de desistir dos sonhos, mas de reconhecer que, às vezes, é necessário encontrar outra via para seguir adiante. É sobre isso que quero falar.
A sensação desses limites surge de diversas formas: a idade, a saúde, o local em que vivemos ou passamos a viver, situação financeira, são várias as razões, todas elas justificáveis, mas não podem, de forma alguma, impedir, bloquear a nossa vontade de seguirmos vivendo.
Vou compartilhar um história com vocês.
Em 2001, eu me mudei para São Paulo. Logo na primeira semana no escritório já pude perceber que se eu saísse todos os dias no horário final do expediente, 18 horas, eu chegaria em casa por volta das 20 horas. Não dava para imaginar 2 horas no trânsito.
Não poderia também ficar parado, chorando as pitangas porque isso não tornaria de modo algum o trânsito mais rápido. Descobri então uma academia do outro lado da rua. Me matriculei, comecei a fazer meus treinos de musculação. Acabava e ia para a esteira. Comprei um fone, colocava na TV individual à frente da esteira e ficava vendo séries. Fui tomando gosto e quando percebi, corria assistindo filmes de quase 2 horas.
A sensação de prazer com a corrida, a endorfina correndo no sangue era indescritível e comecei a correr na rua. Ainda em 2001 fiz a minha primeira Volta Internacional da Pampulha (18KM). Muita dor no dia seguinte, mas feliz.
Partindo daí, me tornei maratonista, corri 23 maratonas. Muito mudou a minha vida, a minha atitude perante ela quando comecei a correr.
Dizer que correr 42 km é fácil seria uma mentira. O mais difícil é a preparação. Treinava em ciclos de 12 semanas, sabendo que ao final teria um dia que eu sairia da cama para correr os 42KM e eu já estaria preparado. Era só chegar lá e correr. Como a grande maioria das 23 maratonas foram corridas no exterior, tinha que preparar a viagem, a logística, arrumar as malas e a Rose, minha esposa, preparando o nosso trajeto turístico, pós prova.
Mas, como sempre, eu estava disposto a me dedicar. E a dedicação foi recompensada quando decidi ir mais longe – literalmente – e correr a Comrades Marathon, 89 km na África do Sul. Corri essa prova três vezes. Não parou por aí: completei as Majors Marathon, seis maratonas que estão entre as mais importantes do mundo.
Depois das maratonas, de ter conseguido a tão desejada mandala das Majors, três vezes a Comrades, a vida, como sempre, trouxe um novo desafio.
Fui diagnosticado com câncer no intestino. Acho que já contei essa história algumas vezes, Passei 36 dias no CTI e mais 12 no quarto, 4 cirurgias, 5 intubações. Tenho certeza que sou uma prova viva que Deus existe.
Eu, que estava acostumado a correr, depois de ter alta hospitalar, de repente não conseguia mais me movimentar. Reaprender a sentar, a andar, a me equilibrar foi um processo doloroso e desafiador. Imagine como é ter que voltar ao básico quando você estava acostumado a ultrapassar seus próprios limites. Foi uma nova realidade.
E então, a grande pergunta: como seguir?
Lembram que eu falei, logo no início, sobre as várias realidades que nos levam ao afastamento, ao distanciamento de nossos sonhos? Pois é…
Hoje, tenho quase certeza de que nunca mais poderei correr uma maratona. Correr os 89 km da Comrades? Isso me soa impossível, não está mais “no radar”. Mas o que vou fazer? Vou desistir? Vou me entregar à frustração e parar de viver? Vou me sentar no banco e começar a chorar? Isso mudará alguma coisa? Não.
A corrida me ensinou a resiliência. Mesmo que as maratonas tenham ficado para trás, ainda posso sair de casa todos os dias e caminhar; correr e andar por duas horas; caminhar de mãos dadas com a Rose todos os domingos, por mais de duas horas, sorrindo e conversando com a minha alma gêmea, minha principal fonte de luz, minha companheira.
Ainda posso sentir o vento no rosto e o movimento das pernas. Ainda posso buscar um novo caminho. Sobre o “vento no rosto”, muito me lembro dessa frase, que me foi dita pelo meu eterno amiguinho, o Ícaro. Um garoto, à época, com 12 anos, que eu corri a Volta da Pampulha o empurrando em sua cadeira de rodas: “Eder, correr é muito gostoso. Você me empurra e eu sinto o vento no rosto. É algo que eu nunca vou esquecer, muito obrigado!” Eu é que nunca vou me esquecer de você meu amiguinho. Hoje eu já posso voltar a sentir o tão gostoso vento no rosto.
E essa é a mensagem que quero deixar para vocês: não importa o tamanho do obstáculo, não importa se o caminho à frente parece ter chegado ao fim. Sempre há outra maneira de continuar. Sempre há e haverá um novo caminho, um novo início ou uma outra via para que possamos encontrar um recomeço.
Às vezes, é preciso aceitar que não podemos mais seguir da mesma forma. Isso não é fracasso, é adaptação. É a sabedoria de reconhecer que a vida muda e que nós também precisamos mudar com ela.
Se um sonho parece distante, talvez seja hora de reformulá-lo, de encontrar uma nova paixão ou uma nova forma de vivê-lo. Não se trata de desistir, mas de abrir espaço para o novo, para o diferente.
Então, quando sentir que o caminho à frente ficou estreito demais, pare, avalie, e busque um novo começo. Sempre há outro caminho.