Por que o público tolera nas startups o que nunca toleraria nas empresas tradicionais?
Ao longo da minha carreira acompanhando organizações de diferentes portes e setores, uma observação me intrigou de forma particular: startups que cometem deslizes éticos significativos raramente enfrentam o mesmo nível de escrutínio público que empresas estabelecidas nas mesmas situações. Essa assimetria não é coincidência. É um fenômeno cultural e psicológico com raízes profundas na forma como a sociedade enxerga inovação, risco e progresso.
Vale a pena examinar esse fenômeno com mais cuidado. Porque ele tem consequências reais para a cultura empresarial, para as pessoas que trabalham nessas organizações e para a forma como o compliance e a ética são tratados nos ambientes de inovação.
A aura da disrupção
Startups cultivam, com muito cuidado e frequentemente com muito sucesso, uma narrativa poderosa: a de que estão mudando o mundo. Essa narrativa cria uma espécie de crédito moral antecipado. As pessoas tendem a ser mais tolerantes com os erros de quem acredita que está construindo o futuro do que com os erros de quem está simplesmente gerindo o presente.
Pesquisas sobre percepção pública de transgressões corporativas mostram consistentemente que startups são julgadas com menos severidade do que empresas tradicionais em situações equivalentes. O mesmo comportamento que geraria protestos, ações legais e cobertura jornalística intensa numa multinacional é frequentemente descrito, quando praticado por uma startup, como “parte da cultura”, “dor do crescimento” ou “o preço da inovação”.
É uma forma curiosa de raciocínio. Como se o destino grandioso que a empresa promete justificasse os meios utilizados para chegar lá.
O exemplo do tratamento dos colaboradores
Um dos casos mais ilustrativos dessa tolerância diferenciada é o tratamento dado aos colaboradores. Longas jornadas de trabalho que desrespeitam limites legais, pressão intensa e constante, benefícios precários, cultura de disponibilidade permanente: práticas que, numa empresa tradicional, resultariam em denúncias ao Ministério do Trabalho e repercussão negativa imediata.
Nas startups, essas mesmas práticas são frequentemente romantizadas. Viram emblemas de comprometimento, de pertencimento a algo maior, de disposição para “fazer o que for necessário”. Os próprios colaboradores, ao menos no início, tendem a absorver esse discurso. A sensação de estar construindo algo novo e relevante é genuinamente poderosa. O problema é que ela pode obscurecer situações que deveriam ser reconhecidas pelo que são: irregularidades trabalhistas com consequências reais para a saúde e o bem-estar das pessoas.
Quando o brilho da narrativa se apaga, o que fica são trabalhadores esgotados, sem proteções adequadas, que contribuíram para o crescimento de uma empresa que os tratou como recursos descartáveis. Isso não é cultura de startup. É ausência de governança disfarçada de propósito.
Casos que revelam o padrão
A história recente do ecossistema de startups está repleta de exemplos que ilustram esse padrão. Empresas que cresceram rapidamente com base em modelos de negócio que ignoravam regulamentações trabalhistas, tributárias ou de proteção ao consumidor, argumentando que as regras existentes não foram feitas para a realidade que estavam criando. Plataformas que coletaram e utilizaram dados de usuários de formas que jamais seriam toleradas de uma empresa estabelecida. Culturas internas que normalizaram assédio e discriminação sob o argumento de que “é assim que startups funcionam”.
Em muitos desses casos, o escrutínio veio tarde. Quando veio. E quando chegou, frequentemente foi mais brando do que teria sido para uma empresa tradicional. A narrativa de inovação funcionou como escudo por muito tempo.
Por que isso é um problema para o compliance
Do ponto de vista da governança e do compliance, essa tolerância diferenciada cria um incentivo perverso. Se comportamentos antiéticos são menos punidos quando praticados por startups, algumas delas aprenderão, consciente ou inconscientemente, que vale a pena empurrar os limites enquanto a aura de disrupção ainda protege.
Mais preocupante ainda é o que acontece quando essas startups crescem e se tornam empresas relevantes. Os hábitos culturais formados nos primeiros anos tendem a persistir. Uma organização que normalizou a flexibilização de regras durante sua fase de crescimento não transforma automaticamente sua cultura ao alcançar determinado faturamento ou número de colaboradores. Muito pelo contrário: as práticas que funcionaram para crescer tendem a ser preservadas como parte da identidade da empresa.
É por isso que compliance e ética não podem ser tratados como assuntos para depois. Para um momento em que a empresa já tiver “crescido o suficiente”. O momento certo é o início. Porque é no início que a cultura se forma. E culturas são muito mais difíceis de transformar do que de construir.
Inovação e ética não são opostos
Existe um equívoco que precisa ser combatido com clareza: a ideia de que ética e compliance são obstáculos à inovação. Não são. Uma startup que constrói sua cultura sobre bases éticas sólidas desde o início não inova menos. Ela inova com mais consistência, atrai talentos que ficam por mais tempo, constrói relações mais sólidas com clientes e parceiros e está muito mais preparada para escalar sem carregar os riscos acumulados de anos de atalhos.
A ética não freia startups. O que freia startups, mais cedo ou mais tarde, são os custos dos comportamentos antiéticos que foram tolerados por tempo demais. Custos financeiros, reputacionais, humanos. Custos que frequentemente aparecem no pior momento possível: quando a empresa mais precisa de credibilidade para crescer.
Uma reflexão para encerrar
A tolerância pública com os deslizes éticos das startups é compreensível em alguma medida. Inovação genuína exige coragem para experimentar, errar e recomeçar. Mas existe uma diferença importante entre erros de percurso inerentes ao processo criativo e comportamentos antiéticos deliberados disfarçados de ousadia.
Startups que reconhecem essa diferença e decidem construir sua cultura sobre fundamentos éticos reais não estão sendo conservadoras. Estão sendo estratégicas. Porque o mercado, os talentos e os investidores estão cada vez mais atentos não apenas ao que uma empresa entrega, mas à forma como ela se comporta no caminho. E a margem de tolerância para práticas inadequadas, mesmo para startups, vai diminuindo à medida que a consciência sobre governança e responsabilidade corporativa amadurece.
Navegar em águas morais turbulentas pode parecer uma vantagem competitiva no curto prazo. No longo prazo, as empresas que chegam mais longe são as que construíram algo mais difícil de replicar do que um produto inovador: uma reputação confiável.
Eder Carvalho Magalhães
Consultor em Governança, Riscos, Controles Internos, Compliance e Auditoria