Da formação familiar ao sucesso profissional: por que os valores aprendidos desde cedo definem quem nos tornamos
Existe uma pergunta que faço frequentemente em sala de aula e que invariavelmente provoca silêncio antes de qualquer resposta: onde você aprendeu ética pela primeira vez? A maioria das pessoas, depois de pensar um pouco, não cita uma escola. Não cita um curso. Cita uma pessoa. Um pai, uma mãe, um avô, uma professora, alguém que demonstrou, no cotidiano, como se comportar com honestidade, com respeito, com responsabilidade.
Essa resposta diz tudo. A ética não começa nos livros. Começa em casa. E é exatamente por isso que ela é tão profunda, tão difícil de fingir e tão difícil de desfazer quando está genuinamente enraizada.
A formação que nenhuma faculdade substitui
Desde a infância, somos moldados pelos valores, princípios e exemplos que recebemos no ambiente familiar. Os pais, os familiares, os educadores: todos contribuem para a formação de uma consciência moral que acompanhará a pessoa pelo resto da vida. Honestidade, respeito, responsabilidade, empatia. Esses não são conceitos abstratos para quem os vive em casa antes de aprender a lê-los num texto.
É essa formação que nos permite, mais tarde, discernir uma conduta certa de uma conduta errada. Que nos dá coragem para seguir o caminho que consideramos correto, mesmo quando o ambiente ao redor aponta em outra direção. E que nos prepara para algo que nenhuma graduação ensina com a mesma eficácia: conviver com pessoas que pensam, agem e foram formadas de maneiras completamente diferentes das nossas.
Quando a vida real desafia o que aprendemos
Ao ingressar na vida profissional, cedo ou tarde nos deparamos com situações que desafiam os valores que trouxemos de casa. Pessoas que agem de formas que não reconhecemos como corretas. Práticas que nos causam estranheza ou desconforto. Comportamentos que contradizem tudo o que foi ensinado.
O que fazer nesse momento? Minha resposta, construída ao longo de décadas de experiência, é: nem tudo precisa ser resolvido a ferro e fogo. A sabedoria está em parar, analisar, compreender. Antes de concluir que algo está errado apenas porque é diferente daquilo que conhecemos, vale perguntar: isso contraria algum princípio ético fundamental, ou simplesmente contraria o meu hábito?
Tenho o costume de chegar aos compromissos com pelo menos quinze minutos de antecedência. Aprendi que o tempo do outro é precioso e que fazê-lo esperar é uma forma de desrespeito. Mas já me encontrei diante de interlocutores que, antes de entrar no assunto da reunião, precisavam falar sobre algo pessoal, compartilhar uma preocupação, desabafar. O que fazer? Interrompê-los e redirecionar para a pauta? Ou ter empatia, ouvir com atenção, perguntar se querem um conselho, simplesmente estar presente?
A vida ética não é uma régua rígida. É uma bússola. Ela aponta uma direção, mas permite que o caminho se adapte ao terreno. Muitas vezes, aquilo que aprendemos precisa ser reinterpretado para que possamos viver cordialmente em sociedade, sem perder a essência do que nos foi ensinado.
Ética como diferencial dentro das organizações
No ambiente de trabalho, a conduta ética deixa marcas visíveis. Uma pessoa com valores sólidos se destaca não apenas pelo que entrega, mas pela forma como se relaciona. Ela inspira confiança. Trata os outros com respeito, independentemente do cargo que ocupam. Honra compromissos. Age com transparência mesmo quando ninguém está observando.
Quando essa pessoa assume uma posição de liderança, o impacto se multiplica. Ela tende a valorizar a meritocracia e a equidade, a identificar talentos com mais justiça, a criar ambientes onde as pessoas podem crescer sem precisar destruir os outros para isso. Já quase no último quarto do século XXI, ainda encontramos organizações que estimulam a competição predatória entre colaboradores, criando climas onde o medo substitui a colaboração. Esse modelo não apenas é eticamente questionável: é estrategicamente ineficiente. Pessoas que chegam ao trabalho preocupadas com a própria sobrevivência política não têm energia para inovar, para crescer, para contribuir com algo que vá além do mínimo necessário.
Profissionais éticos, por outro lado, trazem algo que nenhuma descrição de cargo captura completamente: a disposição genuína de fazer o que é certo, mesmo quando o que é certo não é o que é fácil.
Uma visão que alguns chamarão de ingênua
Sei que alguns leitores podem achar essa visão excessivamente otimista. Talvez até ingênua. Reconheço que o mundo real é complexo e que existem situações onde a conduta ética não é recompensada da forma que mereceria. Isso acontece. Eu mesmo já vivi situações assim.
Mas mantenho a convicção de que empresas construídas sobre valores éticos sólidos têm muito mais chance de prosperidade sustentável do que aquelas que prosperam às custas da ética. Como costumo dizer: um CNPJ é uma junção de CPFs. Se os CPFs que compõem uma organização têm má índole e má conduta, é muito difícil imaginar que esse CNPJ se sobressaia eternamente. Pode até acontecer por algum tempo. Mas não dura. Não vai.
A história dos negócios está repleta de exemplos que confirmam essa conclusão. Organizações que pareciam imbatíveis e que desmoronaram quando a falta de ética que estava nos bastidores finalmente veio à tona. E de outras, menos glamourosas, menos visíveis, que construíram trajetórias longas e consistentes exatamente porque as pessoas que as formavam decidiram, todos os dias, fazer a coisa certa.
Uma reflexão para encerrar
A formação ética é o pilar que sustenta uma vida pessoal e profissional plena. Ela começa muito antes de qualquer faculdade, muito antes de qualquer experiência profissional, muito antes de qualquer treinamento corporativo. Começa no olhar que recebemos de quem nos criou. Nos exemplos que observamos quando ainda nem sabíamos que estávamos aprendendo.
E continua sendo construída a cada escolha que fazemos. Cada vez que decidimos ser honestos quando mentir seria mais conveniente. Cada vez que respeitamos alguém que não precisaria do nosso respeito. Cada vez que cumprimos um compromisso quando descumpri-lo não teria consequência alguma.
Ética não é um destino que se alcança. É um caminho que se percorre todos os dias. E a boa notícia é que cada passo nessa direção deixa uma marca, em nós mesmos, nas pessoas ao nosso redor e nas organizações das quais fazemos parte.
Eder Carvalho Magalhães
Consultor em Governança, Riscos, Controles Internos, Compliance e Auditoria